Segunda-feira, Abril 24, 2006

Virtualização – Adaptação do homem e de seu texto à tecnologia

O homem: reconstrução do indivíduo

O desejo contínuo de comunicar, de trocar mensagens, de se libertar e alcançar aquilo que parecia inalcançável sempre esteve presente no ser humano. É sobre esse assunto que trata o capítulo 2 – A Virtualização do Corpo -, do livro O que é o virtual?, do escritor francês Pierre Lévy. O livro explica que a tecnologia é a grande aliada que vem possibilitando ao homem a realização de sua desterritorialização e virtualização. As técnicas de comunicação permitiram ao homem não apenas compartilhar informações, como também estar em outros lugares e com outras pessoas sem sair de casa. O fenômeno da reconstrução do indivíduo também é conseqüência da revolução tecnológica, que permitiu ao homem remodelar seu próprio corpo, através de cirurgias plásticas ou de medicamentos que alteram o metabolismo e até mesmo que controlam o humor. No campo da comunicação, diversas pessoas puderam ter seus sentidos ativados, através de percepções semelhantes, possibilitadas pelo compartilhamento de imagens, sons e textos. Assim, representações do ser humano passaram a ser emitidas pela televisão, pelo telefone e pela Internet em forma de presenças quase reais.

O texto: estrutura virtual

No capítulo 3 – A Virtualização do Texto - do mesmo livro, Lévy analisa o texto como estrutura virtual desde suas origens e a forma como o leitor se relaciona com essa estrutura abstrata. De acordo com o livro, versões, cópias, traduções e exemplares atualizavam constantemente o conteúdo do texto ou a forma como este era enunciado. Ao ler esse conjunto de frases ordenadas, analisamos a informação, comparamos um parágrafo com outro que já havíamos lido, comparamos também com situações que já vivenciamos ou com outros textos. Assim, produzimos um hipertexto, através de relações e interpretações de fragmentos de texto com outros documentos. No livro, o autor reflete sobre o surgimento do computador, que tornou o texto digital, facilitando ainda mais a interação entre o leitor e o conteúdo. Agora, a cada leitura, é possível criar um novo texto, uma remodelação daquilo que foi escrito. E por incrível que pareça, estamos cada vez mais dependentes das possibilidades oferecidas pelo computador para a criação de hipertextos. Não apenas no trabalho e no estudo, mas até mesmo para o entretenimento, precisamos dessa tecnologia.
Mas antes da popularização do computador, não era assim. É sobre isso que Steven Johnson escreve em seu livro Cultura da Interface – Como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. No capítulo 5, denominado Texto, ele explica de que forma os indivíduos que viveram uma parte de sua vida antes da massificação dessa máquina se adaptaram e adaptaram seus textos aos recursos oferecidos pela tecnologia. Mesmo quem já passou por esse período de adaptação, às vezes se depara com dificuldades ao deixar fluir as idéias para um texto no computador. Agora, podemos escrever frases mais longas, retirar um fragmento do fim da frase e colar no começo e assim por diante. A concepção de um texto de modo digital é diferente daquela feita com caneta e papel, em que era preciso formular toda a frase na cabeça antes de passar para a folha. Sem falar que os processadores de texto no computador auxiliam na correção ortográfica e na semântica.

O computador: interface visual e textual

Steven Johnson também reflete em seu livro sobre a funcionalidade de uma interface cuja linguagem textual seria utilizada em maior quantidade. No princípio, os computadores eram “trituradores” de números, conforme o autor. Devido a esta característica, foi possível evidenciar as propriedades estatísticas da linguagem escrita, que demonstram as características do autor de um texto, através da pontuação utilizada, das palavras empregadas e a quantidade de vezes que cada uma delas apareceu no documento. Permitindo, desta forma, que o computador desenvolvesse um inventário de acordo com o número de vezes que determinadas palavras ou recursos foram utilizados nos textos.
Atualmente, a linguagem visual está mais evoluída que a textual. A inovação para essa linguagem estaria em uma interface semântica, através da qual o computador teria mais controle sobre nossos documentos. Assim, nossos arquivos seriam organizados em função do significado do seu conteúdo e não espacialmente como fazemos hoje, colocando cada documento em uma pasta de acordo com a nossa vontade. Também seria possível fazer um inventário, porém não com o número de vezes que um termo foi usado, mas com base no significado do texto de um documento escolhido previamente.

O Hipertexto e as novas tecnologias

A partir da leitura de ambos os livros é possível discutir a situação atual dos textos. Antes do computador, a produção textual acontecia de forma linear, porque as idéias eram colocadas no papel conforme surgiam. Hoje, não é necessário escrever assim, pois podemos, a qualquer momento, voltar atrás e acrescentar ou remover uma idéia. Não só a produção, como a recepção, se dá de forma hipertextual. Com o computador, produzimos nossos textos de forma fragmentada, isto é, escrevemos e depois invertemos a ordem dos parágrafos, utilizamos imagens e conectamos nossos textos com os de outras pessoas através da Internet. Ao lermos, o processo acontece da mesma maneira, pois lemos uma parte do texto de uma pessoa, depois lemos o texto linkado de outra pessoa, olhamos as imagens e voltamos ao texto inicial. Através da Internet, a disseminação dos textos é muito maior, tornando um desafio diferenciar o texto original das cópias ou edições.
Até onde o homem pode chegar? Após transpassar a barreira do tempo e do espaço, o que mais ele pode criar para atingir o inalcançável? A certeza é que o ser humano não vai parar por aqui. A busca constante pela comunicação - em seu sentido mais amplo, de conectar as percepções dos indivíduos – não cessa. Um exemplo de como a tecnologia vai continuar influenciando a vida do homem, na busca de solucionar ou facilitar o que parecia impossível, é a idéia vislumbrada no texto de Steven Johnson. Em breve, uma nova tecnologia deve permitir ao computador oferecer uma interface semântica. Desta maneira, seria criada uma relação de significação entre nossos documentos e o computador, que estaria apto a “entender” o conteúdo de nossos textos. Então, a máquina poderia reunir em uma mesma pasta documentos com conteúdos semelhantes. Com certeza, facilitaria muito a nossa vida, porque não precisaríamos perder tempo à procura de arquivos. O problema é que talvez assim estaríamos cada vez mais dependentes das máquinas. Mas esse já é outro assunto...